E eu senti aquele medo por dentro
aquele medo que é só meu;
que sobe dos quadris à nuca
e faz contrair os ombros,
ao passo que espremo as pálpebras.
Aquele medo de quem já não tem medo,
porque sabe reconhecer Amor.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Más sobre escaleras
(Cortázar)
Em algum lugar da bibliografia que não quero lembrar foi explicado uma vez que há escadas pra subir e escadas para descer; o que não foi dito na ocasião é que também há escadas para ir para trás.
Os usuários desses úteis artefatos entenderão sem esforço excessivo que qualquer escada vai para trás se a gente sobe de costas, mas o que resta saber nesses casos é o resultado de tão insólito processo. Faça-se teste com qualquer escada externa; superando o primeiro sentimento de incômodo e vertigem, se descobrirá em cada degrau um âmbito que, embora faça parte do âmbito do degrau precedente, ao mesmo tempo o corrige, critica e amplia. Pense-se que pouquíssimo tempo antes, na última vez em que se subiu nessa escada da maneira usual, o mundo de trás era abolido pela própria escada, sua hipnótica sucessão de degraus; mas basta subi-la de costas para que um horizonte a princípio limitado pelo tabique do jardim pule agora até o campinho do Peñaloza, depois abarque o moinho da turca, estoure nos álamos do cemitério e, com um pouco de sorte, chegue até o horizonte de verdade, o da definição que a professorinha da terceira série nos ensinava. E o céu, e as nuvens? Conte-as quando estiver no topo, beba o céu que lhe cai em plena cara por um imenso funil. Quem sabe depois, quando der meia-volta e entrar no andar alto da sua casa, em sua vida doméstica, diária, perceba que também é preciso olhar para muitas coisas dessa forma, que também numa boca, num amor, num romance, é preciso subir para trás. Mas tome cuidado, é fácil tropeçar e cair; há coisas que as obriga a despir-se tanto; obstinadas em seu nível e em sua máscara, vingam-se cruelmente de quem sobe de costas para ver outra coisa, o campinho dos Peñaloza, os álamos do cemitério. Cuidado com essa cadeira; cuidado com essa mulher.
***
En un lugar de la bibliografía del que no quiero acordarme se explicó alguna vez que ay escaleras para subir y escaleras para bajar; lo que no se dijo entonces es que también puede haber escaleras para ir hacia atrás.
Los usuarios de estos útiles artefactos comprenderán sin excesivo esfuerzo que cualquier escalera va hacia atrás si uno la sube de espaldas, pero lo que en estos casos está por verse es el resultado de tan insólito proceso. Hágase la prueba con cualquier escalera exterior; vencido el primer sentimiento de incomodidad e incluso de vértigo, se descubrirá a cada peldaño un nuevo ámbito que si bien forma parte del ámbito del peldaño precedente, al mismo tiempo lo corrige, lo critica y lo ensancha. Piénsese que muy poco antes, la última vez que se había trepado en la forma usual por esa escalera, el mundo de atrás quedaba abolido por la escalera misma, su hipnótica sucesión de peldaños; en cambio bastará subirla de espaldas para que un horizonte limitado al comienzo por la tapia del jardín salte ahora hasta el campito de los Peñaloza, abarque luego el molino de la turca, estalle en los álamos del cementerio, y con un poco de suerte llegue hasta el horizonte de verdad, el de la definición que nos enseñaba la señorita de tercer grado. ¿Y el cielo, y las nubes? Cuéntelas cuando esté en lo más alto, bébase el cielo que le cae en plena cara desde su inmenso embudo. A lo mejor después, cuando gire en redondo y entre en el piso alto de su casa, en su vida doméstica y diaria, comprenderá que también allí había que mirar muchas cosas en esa forma, que también en una boca, un amor, una novela, había que subir hacia atrás. Pero tenga cuidado, es fácil tropezar y caerse; hay cosas que sólo se dejan ver mientras se sube hacia atrás y otras que no quieren, que tienen miedo de ese ascenso que las obliga a desnudarse tanto; obstinadas en su nivel y en su máscara se vengan cruelmente del que sube de espaldas para ver lo otro, el campito de los Peñaloza o los álamos del cementerio. Cuidado con esa silla; cuidado con esa mujer.
(CORTÁZAR, Julio - Más sobre escaleras)
Em algum lugar da bibliografia que não quero lembrar foi explicado uma vez que há escadas pra subir e escadas para descer; o que não foi dito na ocasião é que também há escadas para ir para trás.
Os usuários desses úteis artefatos entenderão sem esforço excessivo que qualquer escada vai para trás se a gente sobe de costas, mas o que resta saber nesses casos é o resultado de tão insólito processo. Faça-se teste com qualquer escada externa; superando o primeiro sentimento de incômodo e vertigem, se descobrirá em cada degrau um âmbito que, embora faça parte do âmbito do degrau precedente, ao mesmo tempo o corrige, critica e amplia. Pense-se que pouquíssimo tempo antes, na última vez em que se subiu nessa escada da maneira usual, o mundo de trás era abolido pela própria escada, sua hipnótica sucessão de degraus; mas basta subi-la de costas para que um horizonte a princípio limitado pelo tabique do jardim pule agora até o campinho do Peñaloza, depois abarque o moinho da turca, estoure nos álamos do cemitério e, com um pouco de sorte, chegue até o horizonte de verdade, o da definição que a professorinha da terceira série nos ensinava. E o céu, e as nuvens? Conte-as quando estiver no topo, beba o céu que lhe cai em plena cara por um imenso funil. Quem sabe depois, quando der meia-volta e entrar no andar alto da sua casa, em sua vida doméstica, diária, perceba que também é preciso olhar para muitas coisas dessa forma, que também numa boca, num amor, num romance, é preciso subir para trás. Mas tome cuidado, é fácil tropeçar e cair; há coisas que as obriga a despir-se tanto; obstinadas em seu nível e em sua máscara, vingam-se cruelmente de quem sobe de costas para ver outra coisa, o campinho dos Peñaloza, os álamos do cemitério. Cuidado com essa cadeira; cuidado com essa mulher.
***
En un lugar de la bibliografía del que no quiero acordarme se explicó alguna vez que ay escaleras para subir y escaleras para bajar; lo que no se dijo entonces es que también puede haber escaleras para ir hacia atrás.
Los usuarios de estos útiles artefactos comprenderán sin excesivo esfuerzo que cualquier escalera va hacia atrás si uno la sube de espaldas, pero lo que en estos casos está por verse es el resultado de tan insólito proceso. Hágase la prueba con cualquier escalera exterior; vencido el primer sentimiento de incomodidad e incluso de vértigo, se descubrirá a cada peldaño un nuevo ámbito que si bien forma parte del ámbito del peldaño precedente, al mismo tiempo lo corrige, lo critica y lo ensancha. Piénsese que muy poco antes, la última vez que se había trepado en la forma usual por esa escalera, el mundo de atrás quedaba abolido por la escalera misma, su hipnótica sucesión de peldaños; en cambio bastará subirla de espaldas para que un horizonte limitado al comienzo por la tapia del jardín salte ahora hasta el campito de los Peñaloza, abarque luego el molino de la turca, estalle en los álamos del cementerio, y con un poco de suerte llegue hasta el horizonte de verdad, el de la definición que nos enseñaba la señorita de tercer grado. ¿Y el cielo, y las nubes? Cuéntelas cuando esté en lo más alto, bébase el cielo que le cae en plena cara desde su inmenso embudo. A lo mejor después, cuando gire en redondo y entre en el piso alto de su casa, en su vida doméstica y diaria, comprenderá que también allí había que mirar muchas cosas en esa forma, que también en una boca, un amor, una novela, había que subir hacia atrás. Pero tenga cuidado, es fácil tropezar y caerse; hay cosas que sólo se dejan ver mientras se sube hacia atrás y otras que no quieren, que tienen miedo de ese ascenso que las obliga a desnudarse tanto; obstinadas en su nivel y en su máscara se vengan cruelmente del que sube de espaldas para ver lo otro, el campito de los Peñaloza o los álamos del cementerio. Cuidado con esa silla; cuidado con esa mujer.
(CORTÁZAR, Julio - Más sobre escaleras)
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Sobre passado
18/11/2010
Estive caminhando pela manhã e como em tantos outros dias, me veio à mente a lembrança de Artur.
Não, há tempos não tenho sua presença aleatoriamente a entremear meus pensamentos, mas hoje em meus nove quilômetros de deleite raciológico - entre sorrisos provocados por Baden Powell e risadas por lembranças de uma das tantas noites sujas acompanhadas por Frederico - bom, sem delongas, lembrei Artur porque algo fez sentido.
Há um lugar estrategicamente projetado no parque, em que um Ipê de flores amarelas foi posto exatamente ao lado de um Jacarandá-mimoso de flores roxas - como num beijo, inconsequentemente - há um período no outono em que ambos floram; impressionante como as coisas acontecem da forma como tem de ser, a gravidade leva as flores ao chão e como num mosaico, a força gerada pelo momento em que as cores se tocam é um convite ao delírio.
Lembrei Artur porque - entre tantos outras discussões telefônicas a que nos demos durante dois anos - quis por um período fazer listras roxas e amarelas em uma das quatro paredes do meu antigo quarto e ele me disse que roxo e amarelo simbolizaria morte, a ideia de morte me chocou naquela noite, mais ainda a falta de sensibilidade à que fui exposta, assim como noutra vez, ele negou uma conclusão minha de que há possibilidade em traspor psicodelia através da composição entre apenas duas cores: preto e branco.
A psicodelia, ao meu ver, é um complexo flerte de sugestões e formas, obviamente possibilitada pela interação entre a presença e a ausência, a soma do tudo e a abstração do nada. A psicodelia é como um ato de permissão adotado pelo sujeito. É uma riqueza de ambivalências, quase tal como o luxo da dúvida, o prazer dos detalhes, dado o sabor da pormenorização.
Então - hoje pela manhã, ao lembrar tais casualidades - senti exatamente Caetano "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é" e sorri, com a mesma naturalidade com que o faço todos os dias, porque sorrir é um ato que começa nos pés, agita cada molécula de água do corpo, aquecendo - e, como numa explosão - eclode na face, ingênua e incontrolavelmente, como luz, a mesma luz de que dependemos para tatear cores.
Com toda sinceridade do mundo, desejei que Artur tenha amadurecido a sinestesia precisa à arte.
Estive caminhando pela manhã e como em tantos outros dias, me veio à mente a lembrança de Artur.
Não, há tempos não tenho sua presença aleatoriamente a entremear meus pensamentos, mas hoje em meus nove quilômetros de deleite raciológico - entre sorrisos provocados por Baden Powell e risadas por lembranças de uma das tantas noites sujas acompanhadas por Frederico - bom, sem delongas, lembrei Artur porque algo fez sentido.
Há um lugar estrategicamente projetado no parque, em que um Ipê de flores amarelas foi posto exatamente ao lado de um Jacarandá-mimoso de flores roxas - como num beijo, inconsequentemente - há um período no outono em que ambos floram; impressionante como as coisas acontecem da forma como tem de ser, a gravidade leva as flores ao chão e como num mosaico, a força gerada pelo momento em que as cores se tocam é um convite ao delírio.
Lembrei Artur porque - entre tantos outras discussões telefônicas a que nos demos durante dois anos - quis por um período fazer listras roxas e amarelas em uma das quatro paredes do meu antigo quarto e ele me disse que roxo e amarelo simbolizaria morte, a ideia de morte me chocou naquela noite, mais ainda a falta de sensibilidade à que fui exposta, assim como noutra vez, ele negou uma conclusão minha de que há possibilidade em traspor psicodelia através da composição entre apenas duas cores: preto e branco.
A psicodelia, ao meu ver, é um complexo flerte de sugestões e formas, obviamente possibilitada pela interação entre a presença e a ausência, a soma do tudo e a abstração do nada. A psicodelia é como um ato de permissão adotado pelo sujeito. É uma riqueza de ambivalências, quase tal como o luxo da dúvida, o prazer dos detalhes, dado o sabor da pormenorização.
Então - hoje pela manhã, ao lembrar tais casualidades - senti exatamente Caetano "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é" e sorri, com a mesma naturalidade com que o faço todos os dias, porque sorrir é um ato que começa nos pés, agita cada molécula de água do corpo, aquecendo - e, como numa explosão - eclode na face, ingênua e incontrolavelmente, como luz, a mesma luz de que dependemos para tatear cores.
Com toda sinceridade do mundo, desejei que Artur tenha amadurecido a sinestesia precisa à arte.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Sobre lembranças
Sobre Vovó
(1929 - 2007)
Estive revolvendo algumas coisas velhas depois que vovó faleceu, curiosamente, encontrei uma edição amarelada da Folha de S. Paulo, que data 1968, mais intrigante foi a sensação que tive ao visualizar Carlos¹ - ao lado de uma receita de bolo de chocolate - numa época em que cabia à um jornal instruir uma dona de casa quanto à delicadeza em construir uma sobremesa. Carlos, recordei tão longos diálogos, saborosos e intermináveis - tardes de reflexões mútuas, eu e Carlos.
Deixei-me levar pela vertigem proporcionada pela práxis. 1968, A Rosa do Povo, quantos bolos de chocolate ainda será preciso ingerir ao longo de uma existência? A sensação de existência proporciona uma divagação que aproxima ao caos, as palavras que não cicatrizam, as lembranças que não cicatrizam, os golpes, as crenças, os protestos, a nudez... a perecividade, o medo, as dúvidas, a moral, a política, a sociedade tão cheia de valores, frases feitas, máximas, verdades absolutas... as contradições... os analgésicos, a fragilidade, os ciclos, o conforto e o desconforto dos ciclos... sim, a esperança inerente aos ciclos e nossa impotência quanto à força cíclica dos fatos; tropeço no limiar da desordem, tenho a sensação de que posso retomar a lucidez, mas não, sei que não, não volto.
Sinto que talvez essa seja uma das melhores lembranças que tive de vovó, com todo seu comportamento retrógrado, machista, sempre dizendo que jornais não competem à mulheres. A vi durante anos vaga-vagando pela casa, numa solidão amedrontadora, sentava sempre ao canto direito do grande sofá; guardava muitas coisas velhas e algumas lembranças da infância que lhe davam um tênue olhar de vivacidade. A casa sempre com poucas lâmpadas, quase sempre todas apagadas, os móveis escuros, as transições, pensamentos bruxuleantes. Vovó não se permitia muitos entendimentos, gostava de Vargas, Jânio - comumente populistas - e falava com orgulho de o quanto foi dependente de todos durante a vida e de como desaprendeu tantas coisas à medida dessa dependência. Bordava, sim, bordava durante horas - numa semsaboria como quando você liga a TV para fixar-se em algo - as linhas oferecem tamanha diversidade de cores, mas vovó mantinha o conservadorismo e a ordem. Visitava a Igreja e tentava nos fazer temer ao diabo, num engraçadíssimo paradoxo, sendo preciso crê-lo para então temê-lo... mas, como deve ser, novamente, volto-me a Carlos, impossível não recordar algum famigerado verso do poeta - desta vez, numa das sete, dentre tantas outras possíveis faces:
"Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."
Vovó nunca viveu 1968, vovó nunca soube cozer bolos.
1 - Consolo na Praia
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas olhas o mar.
Não fizeste o livro perfeito.
Não leste os melhores livros
nem amaste bastante a música.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz baixa te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
A sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido,
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
Precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme meu filho.
(ANDRADE, Carlos Drummond de; in
A Rosa do Povo)
Perdoem-me os que sentiram pela ausência da receita, mas perdi o jornal.
(1929 - 2007)
Estive revolvendo algumas coisas velhas depois que vovó faleceu, curiosamente, encontrei uma edição amarelada da Folha de S. Paulo, que data 1968, mais intrigante foi a sensação que tive ao visualizar Carlos¹ - ao lado de uma receita de bolo de chocolate - numa época em que cabia à um jornal instruir uma dona de casa quanto à delicadeza em construir uma sobremesa. Carlos, recordei tão longos diálogos, saborosos e intermináveis - tardes de reflexões mútuas, eu e Carlos.
Deixei-me levar pela vertigem proporcionada pela práxis. 1968, A Rosa do Povo, quantos bolos de chocolate ainda será preciso ingerir ao longo de uma existência? A sensação de existência proporciona uma divagação que aproxima ao caos, as palavras que não cicatrizam, as lembranças que não cicatrizam, os golpes, as crenças, os protestos, a nudez... a perecividade, o medo, as dúvidas, a moral, a política, a sociedade tão cheia de valores, frases feitas, máximas, verdades absolutas... as contradições... os analgésicos, a fragilidade, os ciclos, o conforto e o desconforto dos ciclos... sim, a esperança inerente aos ciclos e nossa impotência quanto à força cíclica dos fatos; tropeço no limiar da desordem, tenho a sensação de que posso retomar a lucidez, mas não, sei que não, não volto.
Sinto que talvez essa seja uma das melhores lembranças que tive de vovó, com todo seu comportamento retrógrado, machista, sempre dizendo que jornais não competem à mulheres. A vi durante anos vaga-vagando pela casa, numa solidão amedrontadora, sentava sempre ao canto direito do grande sofá; guardava muitas coisas velhas e algumas lembranças da infância que lhe davam um tênue olhar de vivacidade. A casa sempre com poucas lâmpadas, quase sempre todas apagadas, os móveis escuros, as transições, pensamentos bruxuleantes. Vovó não se permitia muitos entendimentos, gostava de Vargas, Jânio - comumente populistas - e falava com orgulho de o quanto foi dependente de todos durante a vida e de como desaprendeu tantas coisas à medida dessa dependência. Bordava, sim, bordava durante horas - numa semsaboria como quando você liga a TV para fixar-se em algo - as linhas oferecem tamanha diversidade de cores, mas vovó mantinha o conservadorismo e a ordem. Visitava a Igreja e tentava nos fazer temer ao diabo, num engraçadíssimo paradoxo, sendo preciso crê-lo para então temê-lo... mas, como deve ser, novamente, volto-me a Carlos, impossível não recordar algum famigerado verso do poeta - desta vez, numa das sete, dentre tantas outras possíveis faces:
"Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."
Vovó nunca viveu 1968, vovó nunca soube cozer bolos.
1 - Consolo na Praia
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas olhas o mar.
Não fizeste o livro perfeito.
Não leste os melhores livros
nem amaste bastante a música.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz baixa te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
A sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido,
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
Precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme meu filho.
(ANDRADE, Carlos Drummond de; in
A Rosa do Povo)
Perdoem-me os que sentiram pela ausência da receita, mas perdi o jornal.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Sobre madrugadas - 10/11/2010
Instruções para promover o fragmento; um parágrafo sobre ambivalências
Você disse que eu falo demais, arquétipo – e isso me soou tão típico, talvez eu pressentisse uma surpresa. Eu falava sobre o como me impressiona a literatura das fugazes matrizes imagéticas pós advento do cinema. Você me disse que desde sempre apreciou o viés do texto milimetricamente detalhado. Falamos muito sobre a representação do real e concordamos sobre o quão saboroso é caminhar depois de fumar um cigarro monocromático. […] Houve um cúmplice silêncio […] Perguntei o que você pensava, assumo, grande tolice. Discordamos quanto à sensibilidade de alívio. Então confessei uma ideia comum, que me faz lembrar infantilidade.– Sinto, sim, confesso que sinto uma curiosidade imensa em saber o que as pessoas estão pensando – o que, na verdade, possa ser mentira; estive por um ou dois, não mais que segundos, desejando pegar com os olhos as tuas divagações. Você naturalmente me disse que pensar não é o mesmo que sentir. Automaticamente, notei um embate. – A tênue linha entre o pensar e o sentir; penso que racionalizo o que sinto e quando penso, penso que sinto menos. Aqui sentada, entendo que meu comportamento é este: O ato de entender me faz maior observadora do mundo, se destrincho, é como se fosse capaz de ignorar o medo, é preciso confundir sensibilidade e reflexão para perder o pavor que, impreterivelmente, intuo sobre o que desconheço. Superficializo o tato, sobreponho a lógica à tal esmiuçamento, assim apreendo a paz estabelecida pela segurança da compreensão. As imagens da televisão me lembravam Monet – é tudo tão atraentemente monótono – e eu pensava o quão bela foi a inflexão que você efetivou em mim naquele instante. Quis te agradecer, espontânea e prontamente, emocionei-me ao experimentar essa deliciosa sensação de movimento a que você me propôs. Foi similar à dirigir uma cena de sexo projetando toda a efervescência ao focar apenas um rosto. E a música me invadia de maneira violentamente melancólica, aplausos e silêncio - e eu; hesito em me despedir daquela noite.
Você disse que eu falo demais, arquétipo – e isso me soou tão típico, talvez eu pressentisse uma surpresa. Eu falava sobre o como me impressiona a literatura das fugazes matrizes imagéticas pós advento do cinema. Você me disse que desde sempre apreciou o viés do texto milimetricamente detalhado. Falamos muito sobre a representação do real e concordamos sobre o quão saboroso é caminhar depois de fumar um cigarro monocromático. […] Houve um cúmplice silêncio […] Perguntei o que você pensava, assumo, grande tolice. Discordamos quanto à sensibilidade de alívio. Então confessei uma ideia comum, que me faz lembrar infantilidade.– Sinto, sim, confesso que sinto uma curiosidade imensa em saber o que as pessoas estão pensando – o que, na verdade, possa ser mentira; estive por um ou dois, não mais que segundos, desejando pegar com os olhos as tuas divagações. Você naturalmente me disse que pensar não é o mesmo que sentir. Automaticamente, notei um embate. – A tênue linha entre o pensar e o sentir; penso que racionalizo o que sinto e quando penso, penso que sinto menos. Aqui sentada, entendo que meu comportamento é este: O ato de entender me faz maior observadora do mundo, se destrincho, é como se fosse capaz de ignorar o medo, é preciso confundir sensibilidade e reflexão para perder o pavor que, impreterivelmente, intuo sobre o que desconheço. Superficializo o tato, sobreponho a lógica à tal esmiuçamento, assim apreendo a paz estabelecida pela segurança da compreensão. As imagens da televisão me lembravam Monet – é tudo tão atraentemente monótono – e eu pensava o quão bela foi a inflexão que você efetivou em mim naquele instante. Quis te agradecer, espontânea e prontamente, emocionei-me ao experimentar essa deliciosa sensação de movimento a que você me propôs. Foi similar à dirigir uma cena de sexo projetando toda a efervescência ao focar apenas um rosto. E a música me invadia de maneira violentamente melancólica, aplausos e silêncio - e eu; hesito em me despedir daquela noite.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Cotidiano
Sim, vou me lembrar.
Mais café, mais café, mais café...
Entro no elevador, sinto aquela expectativa de notar-me acompanhada por algum rosto estranho - apenas para desejar-lhe bom dia.
A solidão
Subo a rua, a garoa é incômoda, pago a tarifa, entro no metrô...
Não, não, não há sentido. A garota que estuda administração, o rapaz que busca apreensivamente por informações ao celular, aquele sabor adocicado...
as sapatilhas, sim, as sapatilhas fazem algo como toc toc toc
preto, preto... preto, branco e vermelho...não seria uma combinação?
Ele me olha, notavelmente sente curiosidade.
Mas estamos tão longe...as casas
Sim, as casas, as casas são cheias, de vidas
a transitoriedade me apavora e esses consultórios me causam estranhamento,
como num paradoxo, as instituições se alimentam vulgarmente de vidas.
-------------------------------------------
Tenho medo
medo, medo, medo de que a habilidade tome algum caráter mecânico.
-------------------------------------------
Sabão em pó
Esponjas
Cândida
A lista de compras
Me sinto como alguém que espera pelo elevador por mais que dez segundos,
sendo seu destino o primeiro andar.
A janela sempre comunica;
Chove muito, desde o amanhecer.
A casa é quase sempre solitária
louça suja na pia
Coisas por fazer
a lista de mercado...
A cidade tem muitos cheiros
e todos eles me confundem.
Mais café, mais café, mais café...
Entro no elevador, sinto aquela expectativa de notar-me acompanhada por algum rosto estranho - apenas para desejar-lhe bom dia.
A solidão
Subo a rua, a garoa é incômoda, pago a tarifa, entro no metrô...
Não, não, não há sentido. A garota que estuda administração, o rapaz que busca apreensivamente por informações ao celular, aquele sabor adocicado...
as sapatilhas, sim, as sapatilhas fazem algo como toc toc toc
preto, preto... preto, branco e vermelho...não seria uma combinação?
Ele me olha, notavelmente sente curiosidade.
Mas estamos tão longe...as casas
Sim, as casas, as casas são cheias, de vidas
a transitoriedade me apavora e esses consultórios me causam estranhamento,
como num paradoxo, as instituições se alimentam vulgarmente de vidas.
-------------------------------------------
Tenho medo
medo, medo, medo de que a habilidade tome algum caráter mecânico.
-------------------------------------------
Sabão em pó
Esponjas
Cândida
A lista de compras
Me sinto como alguém que espera pelo elevador por mais que dez segundos,
sendo seu destino o primeiro andar.
A janela sempre comunica;
Chove muito, desde o amanhecer.
A casa é quase sempre solitária
louça suja na pia
Coisas por fazer
a lista de mercado...
A cidade tem muitos cheiros
e todos eles me confundem.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Sobre vazios
Em algum momento da vida, não sei captar o qual, é como se as atitudes começassem a se justificar por inércia, como se eu pudesse justificar raciocínios curtos com a falta de tempo.
Não sou dada a dramas, mas parece que em algum momento, perdi - não sei o que, mas perdi, como quando você transpõe o portão, encara a rua e sente um frio que começa nas vias aéreas e chega intensamente ao ventre, uma agonia, como se estivesse nu na porta de casa.
Não, não são as pessoas, nem o tempo, mas parece que perdi a fé, alguma partícula de crença muito íntima, que me dava suposto sentido.
Não são frustrações, não há tempo hábil para projetar vazios, não me dei a esse luxo, é muito mais instintivo viver, naturalmente, sem demais dramas ou extensões.
Mas, perdi, em algum momento perdi, perdi o foco, perdi a fluidez, a coordenação, as idéias, simplesmente, perdi, como se eu pudesse perder a poesia, a cadência, o ritmo, como se esquecesse algum tipo de fórmula, antes inerente à mim, perdi o bom-senso, perdi as construções filosóficas, a linearidade, o conforto.
Ninguém vive de nostalgias, essa cruel obviedade, mas é como se a percepção sensível do mundo solidificasse, e todo pensamento permanecesse inconcluso, quase como sem amor; e concatenar idéias é um ato elétrico, organizado.
A dificuldade em transpor toda ação posta ao redor, não compreendo, é como sair do desequilibrio que proporciona a existência e deixar escapar todo fluido de que nutri, é como não encontrar a órbita.
Não sou dada a dramas, mas parece que em algum momento, perdi - não sei o que, mas perdi, como quando você transpõe o portão, encara a rua e sente um frio que começa nas vias aéreas e chega intensamente ao ventre, uma agonia, como se estivesse nu na porta de casa.
Não, não são as pessoas, nem o tempo, mas parece que perdi a fé, alguma partícula de crença muito íntima, que me dava suposto sentido.
Não são frustrações, não há tempo hábil para projetar vazios, não me dei a esse luxo, é muito mais instintivo viver, naturalmente, sem demais dramas ou extensões.
Mas, perdi, em algum momento perdi, perdi o foco, perdi a fluidez, a coordenação, as idéias, simplesmente, perdi, como se eu pudesse perder a poesia, a cadência, o ritmo, como se esquecesse algum tipo de fórmula, antes inerente à mim, perdi o bom-senso, perdi as construções filosóficas, a linearidade, o conforto.
Ninguém vive de nostalgias, essa cruel obviedade, mas é como se a percepção sensível do mundo solidificasse, e todo pensamento permanecesse inconcluso, quase como sem amor; e concatenar idéias é um ato elétrico, organizado.
A dificuldade em transpor toda ação posta ao redor, não compreendo, é como sair do desequilibrio que proporciona a existência e deixar escapar todo fluido de que nutri, é como não encontrar a órbita.
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