terça-feira, 24 de março de 2015

Peguei um cigarro, como todos outros dias e desci escadas, agora outras, sempre escadas. A cabeça fervilhante - a cidade acelerada - apenas um cigarro, os olhos do porteiro seguem, o esforço em ignorar me vence.
Só um cigarro.
Um tiozinho, grisalho, branco - daqueles que coloca a camisa pólo dentro do jeans, usa cinto de couro como os sapatos - que tédio - pateticamente alinhado, cabelos todos os dias curvados ao mesmo lado.
Pediu licença e iniciou seu discurso tedioso.
Nalguns dias não há reação, é como se nada acontecesse. Nada. Sinto uma inundação que ecoa
nada. nada. nada.
Não escolhi, não é opção essa combinação duplo X, esse gene inteiro que me supõe objeto frágil.
Objetivamente objetificadas.
"Você é muito bonita" ou qualquer coisa vociferada por desconhecidos mais de uma vez hoje ou ontem ou anteontem em qualquer trajeto entre a porta do condomínio e a rotina.
Mas que inferno, quando a gente não tem graça nem pra debochar e chora nos degraus tediosos.
Chorei, como quem ainda paga a dívida do Éden.
(nov/2014)

Me levou o melhor livro de poesia de Gullar

Foi quando ele disse
quero você pra mim
infeliz
fez meu cérebro
todo fragmento
sem movimento
ecoar cada homem
você pra mim
simulacro
pra mim
sem passado
sem pecado
sem escolha
pra mim
nula
infeliz
você
à mim
enterrou o desejo
num momento

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Não entendo
Como senti tanto medo
da loucura próxima?
Se essa é em si
adjetivo feminino
desde o nascimento?

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

De papel passado

Joguei tudo fora
tudo papel na sacola
os amores as fugas 
ansiedades
joguei tudo fora
tudo que fora
liberdade?
confusão, menina
e agora?
que encarar
sem revolver 
olhar atrás?
tudo bem, mulher.
ninguém vive
de remoer passado
era tanto nome
era tanto medo
respira
aquieta
não precisa pensar mais

Terapiti

O Sol mancha
o céu
distorcido
vermelho
os prédios
nunca
menos desconfiados.
As narinas
incômodas de pó
Alerta:
não há escape
que insista
por uma vida.
Os cigarros
queimam
lentos
como o dia.
A gente
toda marcha
alimenta engrenagens.
Olhos fundos que fogem.
Pés que não precisam mais.
Sente o doce
das veias incandescentes
a cidade indiferença.

Sejamos radicais

É SÓ BOTAR O PÉ NA RUA PRA LEMBRAR PORQUE A GENTE VIVE NO VENENO. NÃO TEM TEMPO PRA FRAGILIDADE, O MUNDO É UM ROLO COMPRESSOR CHEIO DE OTÁRIO TE REDUZINDO A BURACO QUENTE. A REALIDADE SE IMPÕE, NÃO É ESCOLHA E A GENTE APRENDE A BRIGAR POR ESPAÇO O TEMPO TODO. É O QUE É, NÃO SOBRA MUITO TEMPO PRA RECAÍDA E NÃO TEM LUGAR PRA HEROÍNA ROMÂNTICA.

ÀS VEZES A GENTE SE PÕE QUE NÃO SABE O QUE É OU DE ONDE VEIO, ENTRA NA PIRA DOS DECADENTES MUROS DA NORMALIDADE. A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA TÊM LUCRADO MILHÕES COM GENTE NORMAL. NADA DEMAIS, TODO MUNDO PRECISA DE UMA DROGUINHA PRA LEVAR A ROTINA. AINDA PREFIRO DESCER BEM FUNDO. SE ESSA NORMALIDADE TODA INSISTE ME TAXAR LOUCA, MAIS UMA VEZ, LEMBRO QUE POSSO SER ESTÁVEL EM MEUS DESEQUILÍBRIOS.

Praia de Iracema

                                      Fortaleza - jan 2013

 Iracema restaurada em 2012
- dizem as letras em relevo
não há mamilos
ou clitóris
mas uma redonda
sinuosa barriga

Barriga oblíqua
de mulher sem sexo

Deem prazer à moça
gravemente nua
grávida, de negado sexo

Estática
olhos voltados ao mar
corpo enclausurado
presa ao monumento
- simbólico metal dourado
romântica representação
positivista miscigenação.

 Ansiosa,
aguarda que dela retirem
os olhares cristãos

Grávida,
embora sem sexo
gravemente
desnuda pelo pudor.

Deduzo:
não foi paixão.
Alencar, foi estupro

Para profundo gozo
alastrando o ódio civilizatório