Mordo essa boca
boca que me morde;
como se fosse ferir
- mas não fere.
Sinto esse hálito
vivo
que aquece;
sangue.
Preciso tocar teu rosto
assim sei
meus dedos dizem:
ainda não sou névoa.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Sobre ausência
É sempre mais difícil pela manhã – a gente acorda, meio fora de eixo – essa transição do universo onírico ao quadrado branco; e os cabelos estão totalmente emaranhados ao pescoço, como se pudessem enforcar. Não adianta, há a ilusão inicial de que cortá-los é a solução, mas não, lidar com a ausência permanece trabalhoso, porque agora você se sufoca com os lençóis, sim, a culpa é dos lençóis... e você nem se recorda mais o porquê cotar os cabelos era tão necessário, mas tenta sentir algum conforto em usar menos xampu, como se algo realmente houvesse mudado, alguma sensação cômoda de praticidade.
Em seguida, você se convence a dormir sem lençóis, mas o que fazer com aquela sensação de pigarro eterno? É preciso abandonar os cigarros; é tão fácil convencer-se de que tudo depende da predileção por um sistema de vida mais saudável. Alguns dias a gente acorda soluçando e acha que pode fingir que não sabe de onde vêm os ruídos, talvez dos vizinhos – e como são barulhentos – os vizinhos; ou foi um pesadelo? A questão toda está na solidão!
Dizem que a solidão enlouquece; a sociedade garante que dialogar consigo é evidência. Sufocamento; porque o embate permanece, vício diário, mas o interlocutor só permite que você se cale, como se te tapasse a boca com as mãos; não há mais nada a dizer. À noite é sempre mais fácil ignorar, a gente gasta tanta energia durante umas quatorze, dezesseis horas nisso - até ter certezas – você já assumiu o quão são cruéis as certezas? Todos os dias tão voláteis; castram a imaginação. Mas vão chegando as horas, e depois das vinte e três horas e cinqüenta e dois minutos – não custam a chegar - dá até medo de dormir. Já perdeste os cabelos, no andar de cima, fazem um silêncio perturbador e os lençóis se tornaram supérfluos...
Em seguida, você se convence a dormir sem lençóis, mas o que fazer com aquela sensação de pigarro eterno? É preciso abandonar os cigarros; é tão fácil convencer-se de que tudo depende da predileção por um sistema de vida mais saudável. Alguns dias a gente acorda soluçando e acha que pode fingir que não sabe de onde vêm os ruídos, talvez dos vizinhos – e como são barulhentos – os vizinhos; ou foi um pesadelo? A questão toda está na solidão!
Dizem que a solidão enlouquece; a sociedade garante que dialogar consigo é evidência. Sufocamento; porque o embate permanece, vício diário, mas o interlocutor só permite que você se cale, como se te tapasse a boca com as mãos; não há mais nada a dizer. À noite é sempre mais fácil ignorar, a gente gasta tanta energia durante umas quatorze, dezesseis horas nisso - até ter certezas – você já assumiu o quão são cruéis as certezas? Todos os dias tão voláteis; castram a imaginação. Mas vão chegando as horas, e depois das vinte e três horas e cinqüenta e dois minutos – não custam a chegar - dá até medo de dormir. Já perdeste os cabelos, no andar de cima, fazem um silêncio perturbador e os lençóis se tornaram supérfluos...
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Pouco mais; sobre janelas
Impressionante como as cinzas plainam ao cair pela janela do nono andar e como é impreciso imaginar o lugar exato em que elas tocam o chão; já as gotas caem, impossível dimensionar de qual andar, as gotas caem e dispersam, sempre dando a sensação de que já não chegarão ao chão; mas chegam - pequeninas, sempre chegam - e ouço milhares delas, chovendo aos montes. Linda é a liberdade com que tudo cai, seja da janela, seja daquele viaduto, seja da plenitude azul ou dessa mesa; é como uma hipnose, sim, a gravidade é a grande hipnose, sempre devolvendo os corpos ao chão, sempre recordando-os da necessidade por curvar-se ao centro.
Altura; aliás, a altura é um evento deslumbrante, assim como a curiosidade; e a interação entre as duas coisas chega a desestruturar; a desestruturar o medo. O medo da velocidade, o medo do movimento, o medo da altura; é a curiosidade que faz com que as gotas se joguem e esqueçam a consequência de tocar o chão, a mesma curiosidade faz ignorar qualquer preservação instintiva e querer correr cada vez mais velozmente a fim de transpor qualquer matéria. A curiosidade que nos faz mudança; a curiosidade que nos faz sentir vida.
Me pergunto se aquelas cinzas, ou aquelas gotas tremem ao serem lançadas, se de fato elas são dominadas por algum senso de preservação ou se apenas caem; umas levemente, voando metros, talvez quilômetros; outras espatifam, dominadas pela gravidade, desesperadas por encontrar alguma fissura para poder chegar ao miolo terrestre; se sentem medo, sim, o medo, o medo que nos mantêm desse lado da janela, o medo que nos mantêm atrás da mesa, com essa sensação dúbia de conforto, mesma sensação que alimenta esse tédio visceral. Tédio por estar sempre protegido pelas mesmas construções sólidas: as mesmas paredes, a mesma cadeira, e tocar essa mesma boca que projeta todo dia os mesmos medos.
Altura; aliás, a altura é um evento deslumbrante, assim como a curiosidade; e a interação entre as duas coisas chega a desestruturar; a desestruturar o medo. O medo da velocidade, o medo do movimento, o medo da altura; é a curiosidade que faz com que as gotas se joguem e esqueçam a consequência de tocar o chão, a mesma curiosidade faz ignorar qualquer preservação instintiva e querer correr cada vez mais velozmente a fim de transpor qualquer matéria. A curiosidade que nos faz mudança; a curiosidade que nos faz sentir vida.
Me pergunto se aquelas cinzas, ou aquelas gotas tremem ao serem lançadas, se de fato elas são dominadas por algum senso de preservação ou se apenas caem; umas levemente, voando metros, talvez quilômetros; outras espatifam, dominadas pela gravidade, desesperadas por encontrar alguma fissura para poder chegar ao miolo terrestre; se sentem medo, sim, o medo, o medo que nos mantêm desse lado da janela, o medo que nos mantêm atrás da mesa, com essa sensação dúbia de conforto, mesma sensação que alimenta esse tédio visceral. Tédio por estar sempre protegido pelas mesmas construções sólidas: as mesmas paredes, a mesma cadeira, e tocar essa mesma boca que projeta todo dia os mesmos medos.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Fevereiro
O cigarro às dez da manhã numa segunda-feira é uma fuga ao final de semana; os excessos, desordem; lembranças distorcidas. Como uma manutenção da quantidade mínima de toxinas vitais, até a chegada da próxima sexta-feira.
Fevereiro é o mês da nostalgia barata, o mundo parece tão mais simples, a gente tem aquela ilusão de dezessete anos; os velhos amigos, o boteco sujo, a conversa que não requer lógica, algum desafabo, muitos vícios e o conforto das risadas que se fundem; aquela voz já bastante conhecida e íntima até as sete da manhã - cada fevereiro um pouco mais rouca - a voz que fará falta o ano todo.
Fevereiro é o mês da nostalgia barata, o mundo parece tão mais simples, a gente tem aquela ilusão de dezessete anos; os velhos amigos, o boteco sujo, a conversa que não requer lógica, algum desafabo, muitos vícios e o conforto das risadas que se fundem; aquela voz já bastante conhecida e íntima até as sete da manhã - cada fevereiro um pouco mais rouca - a voz que fará falta o ano todo.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Rotina
A cabeça levita.
Os pés se movimentam
debilmente;
como se pudessem esquecer
o caminho de casa.
Os pés se movimentam
debilmente;
como se pudessem esquecer
o caminho de casa.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Nota
De repente
um sorriso
- flutuante;
pelo asfalto.
No fundo,
toda boca sabe:
o que prometem
os lábios
entreabertos
- que flertam
ingênuo-malicioso.
No fundo,
todas pernas sabem
que o movimento trái
- tal como oralidade;
Toda chuva sabe
que aos corpos dissolve.
um sorriso
- flutuante;
pelo asfalto.
No fundo,
toda boca sabe:
o que prometem
os lábios
entreabertos
- que flertam
ingênuo-malicioso.
No fundo,
todas pernas sabem
que o movimento trái
- tal como oralidade;
Toda chuva sabe
que aos corpos dissolve.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Artrópodo
Meu exoesqueleto
de quitina - que proteje;
craquela
de tempos em tempos
expando
- perco a dura carapaça.
Mas logo recomponho,
reconstruo outra
inicialmente
menos espessa,
- em breve,
eficaz invólucro.
Ciclicamente,
até a maturidade.
Eu sei:
minha beleza
verde
confunde;
alguém sempre tenta
me arrancar uma pata;
talvez ciúmes
obsessão,
cruel curiosidade
ou amor desproporcional.
Talvez,
simples estranhamento
- minha totalidade exótica.
Mas a verdade é:
eu vivo;
aos grandes saltos.
Minhas antenas;
- sensíveis
farejam seu medo,
camuflo;
e logo me afasto.
de quitina - que proteje;
craquela
de tempos em tempos
expando
- perco a dura carapaça.
Mas logo recomponho,
reconstruo outra
inicialmente
menos espessa,
- em breve,
eficaz invólucro.
Ciclicamente,
até a maturidade.
Eu sei:
minha beleza
verde
confunde;
alguém sempre tenta
me arrancar uma pata;
talvez ciúmes
obsessão,
cruel curiosidade
ou amor desproporcional.
Talvez,
simples estranhamento
- minha totalidade exótica.
Mas a verdade é:
eu vivo;
aos grandes saltos.
Minhas antenas;
- sensíveis
farejam seu medo,
camuflo;
e logo me afasto.
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